14 de mar de 2012

Por que o Brasil não produz filmes de terror?


Descubra as razões que inibem a produção de filmes no gênero enquanto até o Uruguai investe em filmes de terror. DiMarte fez essa pesquisa para que vocês possam compreender o que pensa a indústria cinematográfica nacional sobre o terror e o porquê vários idealizantes acabam no submundo dos longas metragens, tudo da forma mais imparcial possível.

Espero que aproveitem esta analise. As opiniões expressas representam apenas os pensamentos do autor, podendo ou não corresponder com a visão dos demais membros do Vai Assistindo. Sintam-se livres para se expressarem no espaço destinado aos comentários.

O Brasil é um país com grande diversidade cultural e religiosa. Apesar do estado se considerar laico, a religião influencia o cotidiano de centenas de brasileiros, e mesmo com algumas contradições, existe ainda um conservadorismo em relação a determinados assuntos. Como muitos sabem, fomos colonizados por portugueses católicos, e dessa forma, qualquer manifestação pagã era, e até hoje é por alguns, vista como inaceitável, quase extinguindo a cultura indígena presente impondo os ensinamentos religiosos. Até o momento, não há muita diferença com os colonos ingleses que habitaram os EUA, a diferença é que a Inglaterra é um país de origem anglo-saxã, que possuí uma linha folclórica mais mistica e sobrenatural. Lendas sobre florestas sombrias, demônios que sequestravam crianças, fantasmas rancorosos e bruxas malignas estavam mais presentes dentro do ambiente familiar mesmo nas colônias.

A cultura indígena também é rica de elementos macabros, monstros terríveis e espíritos sedentos de sangue. Quem tiver paciência, pesquise sobre as criaturas folclóricas de nossa nação, dispensando os mais comuns (Curupira, Iara, Boitatá, Caipora...), e irá ver que a lista é mais elaborada. Ou então procure as histórias originais, dessa forma você vai descobrir que nem os Irmãos Grimm escreviam contos felizes e inocentes. Enquanto os europeus já possuíam traços de sua antiga cultura ainda preservada, os colonizadores fizeram questão de menosprezar a já existente nas terras descobertas, impondo o que julgavam necessário para a construção de uma sociedade "civilizada". A tentativa não foi tão bem sucedida porque houve uma mistura de crenças formando nossa cultura atual, mas teve suas consequências ainda visíveis.

Conhece o mapinguari? Deveria.
É verdade que muitas pessoas julgam o terror como algo indecente ou "estrangeiro demais", e acabam esquecendo do material do gênero enraizado em nosso folclore. As razões são diversas, alguns rejeitam por causa da fé que possuem, outros simplesmente não gostam, e ainda há os conservadores e moralistas que abominam esse conteúdo. O "bum" dos filmes de terror no Brasil  só vieram com as grandes produções americanas da década de 1970, antes disso ainda era mal visto. O que nos leva a história do cinema nacional.

Há filmes sendo exibidos no Brasil desde 1896, e o cinema fez muito sucesso. Porém, a qualidade de nossas películas não eram muito boas, até hoje dezenas de longas metragens são realizadas e apenas uma pequena parcela é lançada comercialmente. A invasão massiva de produções internacionais fez com que a nacional fosse encarada como rústica e atrasada, porém não impediu que ela se desenvolvesse. Antes do movimento do Cinema Novo, inspirado na Nouvelle Vague, os filmes brasileiros não tinham tanta repercussão.

O Cinema Novo, iniciada na década de 1950, foi marcado com produções mais ousadas, e ainda teve que enfrentar a censura da Ditadura Militar mais tarde. Utilizando novas técnicas e em histórias mais interessantes, o cinema nacional começou a formar suas próprias características e possuir personalidade. Porém, novamente o terror foi evitado em nome da "nacionalização das películas", tendendo para uma linha um pouco mais politizada e crítica para retratar a realidade. O melhor exemplo para compreender o movimento é Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, uma produção barata, mas com conteúdo a ser visto. O gênero foi parar nas mãos de outra manifestação cinematográfica, o "Udigrudi" (versão estilizada de Underground), uma linha mais radical de produção nacional, responsável por obras como O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, e a série dirigida, produzida e estrelada por José Mojica, o Zé do Caixão.

Ah, o velho Zé...
Mas algo aconteceu na década de 1970, surgiu o "Pornochanchada". Produções eróticas e/ou altamente sexualizadas desacreditaram o cinema nacional. Está certo de que havia um grande mercado para esse tipo de filme, entretanto surgiu a ideia de que película brasileira era sinônimo de "putaria". E se não fosse o bastante, investiram também em filmes infantis, ocasionando 14 filmes dos Trapalhões para expandir o mercado. As produções sérias tiveram uma queda, entretanto houve um crescimento na indústria nacional de cinema até a crise econômica. Se grandes nomes faliam, novos produtores chamaram atenção produzindo curtas, mas o cinema nacional foi bem prejudicado com a falta de investimentos, o que rendeu uma parada nos lançamentos.

Apenas em 1995, com novos projetos de incentivo a produções audiovisuais, que foi possível pensar em reerguer o cinema nacional. Em 1997 foi fundada a Globo Filmes, que monopolizou esse ramo, sendo responsável por todos os lançamentos brasileiros na indústria cinematográfica. Foi possível que ao poucos a imagem de nossas películas assumissem um aspecto mais sério, e ganharam respeito a nível internacional.

Nesse momento você diz: "Tudo bem, e daí?"

Simples, com a falta de concorrência, a Globo Filmes decide o que deve ser produzido, ou melhor, que tipo de filme "faz a cara do Brasil". Por isso temos uma linha limitada de títulos de drama e comédia, e é também o motivo por eu me orgulhar de Tropa de Elite, pois foi o primeiro filme 100% ação decente que nós fizemos em anos. Com essa limitação de gêneros, qualquer ousadia merece ser reconhecida. O terror foi condenado a viver ainda no "Udigrudi", e trashes como Zombio e Mangue Negro são alguns exemplos desse tipo de produção carente de investimento. O que nos leva a comparar nosso conteúdo cinematográfico com nossos vizinhos da América do Sul.

O Uruguai, um país que não tem uma produção cinematográfica significativa, conseguiu chamar atenção ao lançar A Casa. O filme de terror teve destaque graças ao seu modo de filmagem e pela propaganda feita, porém o que realmente aconteceu é que foi aproveitado o modismo do "terror real", febre iniciada por A Bruxa de Blair e que atingiu o auge com Atividade Paranormal. Mas isso não muda que o Uruguai tenha investido no gênero, até a Argentina compreendeu a nova tendência, e em 2011 lançou o filme Penumbra (trailer logo abaixo). Novamente a pergunta retorna: Por que o Brasil não produz filmes de terror? A primeira razão é mais simples do que parece. A Globo Filmes, como empresa, possui uma imagem e uma reputação a zelar, e que não pode ser comprometida com uma produção desse tipo. A Paramount, que produziu Forrest Gump, Bonequinha de Luxo e Ghost, lançou Atração Fatal e O Bebê de Rosemary! O que falta é flexibilidade da única produtora nacional.

Trailer de Penumbra, de Ramiro García Bogliano


Como não há concorrência a altura, o Brasil fica na mão de uma única empresa, e apesar da política de incentivo, não há brecha para a competição. Não é exclusivamente nacional que exista entidades estatais que dão apoio a novas produções, na Espanha, França, Argentina, Alemanha, Itália e Portugal também contam com esse recurso, e todos esses países tem filmes de terror, merecendo destaque a Itália e a França pelas famosas películas Suspiria e Martyrs, respectivamente. A justificativa dada dessa vez é que não há publico o suficiente para incentivar tal mercado, pois o espectador brasileiro é mais conservador nesse ponto e as temáticas podem ir contra a religião da maioria. Isso é estranho visto que não vetaram a exibição do filme Turistas aqui, e olha que o longa é absurdamente ofensivo em relação ao nosso país. E ainda mais equivocado quando a franquia Atividade Paranormal, o remake de A Hora do Pesadelo e outros títulos, lotam salas e séries como The Walking Dead fazem sucesso.

Público existe, porém a empresa julga como "modismo" e, mais uma vez, um material estrangeiro. O problema não é o público, e sim a falta de concorrência. Se houvesse uma "DiMarte Filmes" no mercado provavelmente a situação seria diferente, pois seria necessário ampliar para atingir novos espectadores, e com isso teriam que se arriscar com os outros gêneros. Não desmereço as produções nacionais, apenas vejo as consequências de um monopólio agressivo. É mais fácil seguir uma receita segura do que arriscar com algo novo, a verdade é que não existe por parte dessas empresas associadas a Globo Filmes uma experiencia, nem liberdade, com o gênero, e como possuem medo de competir mais ainda com o estrangeiro preferem evitá-los. Festivais como o Fantaspoa deveriam ser mais conhecidos e divulgados, pois são eles que abrem espaço para essa diversidade.

Como queria morar perto de Porto Alegre.
O Brasil tem muito conteúdo para montar um bom filme de terror, e nosso cinema tem crescido bastante, entretanto, não se pode culpar apenas as produtoras. Ainda há uma desvalorização das nossas produções, pessoas dizendo que os filmes nacionais não prestam e são apelativos, porém assistem Não é Mais um Besteirol Americano. Filme ruim existe em qualquer lugar, mas esse preconceito herdado gera uma dificuldade de expansão, pois certos títulos acabam não dando o lucro necessário. Como há um grande receio por parte do espectador, lógico que vão preferir investir em algo que sabem que irá vender, cinema também é comércio, a produção precisa bancar seus custos, e agradar não é fácil. Assim como com os títulos estrangeiros, há aqueles que correspondem com a expectativa, tem os que decepcionam e os que surpreendem. Confesso que quando fui assistir De Pernas pro Ar, sabendo que possuo um pouco de pudor por sexo (podem me chamar de careta), fiquei impressionado e ri bastante.

Se as produtoras falham por falta de ousadia, o brasileiro falha pela falta de fé pelo cinema nacional. É um erro mútuo, ambos são responsáveis pela falta de terror em nosso país, mas a balança pesa mais para a indústria, pois não há iniciativa para a expandir o conteúdo oferecido. O ideal seria pegar os diretores pequenos e financiar seus trabalhos, funcionou muito bem com George A. Romero, John Carpenter, Wes Craven, Sam Raimi e  Peter Jackson, todos grandes nomes do cinema atual. O Brasil não valoriza suas obras, não tem auto confiança, é necessário abandonar essa "síndrome de vira lata" e começar a crer na nossa própria capacidade. Se há fãs de terror no Brasil, valorize o terror nacional, por mais tosca possa ser o filme, pois existe muito diretor bom lutando por atenção e destaque, tentando conquistar uma oportunidade. Pare de esperar uma grande produção e procure os curtas metragens e trashes, conheça o pessoal, pois se esse cara que faz um curta de terror começar a ser muito procurado e comentado ele ganha a chance dele de fazer um longa. Não é só o controle das poucas empresas de cinema que mantém esses diretores no banimento, é você também que nem ao menos se dá o trabalho de procurar saber sobre eles. Pense nisso.

Desculpe se o final pareceu meio pesado, mas gostaria que refletissem antes de colocarem algo nos comentários. Em compensação, vai aqui um curta nacional para apreciarem, As Mãos de Laura, o qual tive contato graças ao blog Café com Tripas.



15 comentários:

  1. Concordo plenamente contigo. Não basta culpar a ignorância das produtoras nacionais, o público que se diz fã de terror também deveria buscar mais pelos jovens diretores que ficam vagando em canais do youtube com curtas e produções trash quando conseguem fazer algo mais elaborado. Deve ter muito cara bom por aí e a gente nem sabe.

    Belo post DiMarte, gostei bastante do curta também, gostaria de ver mais desses por aqui.

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  2. Análise genial. Ninguém dá valor a nossa cultura original de berço indígena, os colonos realmente conseguiram implantar seus valores e supervalorizá-los. Porém, Portugal também tem uma série de lendas macabras também, o problema foi que, como você indica, a igreja católica insistiu em impor suas normas no novo mundo.
    Sou católico, o que digo é que a mentalidade de igreja naquele período era a mesma que de muitos países expansionistas. Gostei bastante das sua visão, vou passar a procurar saber mais sobre curtas nacionais agora.

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  3. Uma análise muito bem feita sobre a situação do cinema nacional, não apenas o de horror. Infelizmente, a difusão de cultura em nosso país é enormemente prejudicada devido à ação dos grandes veículos midiáticos, que restringem o conteúdo distribuído a poucas opções. Parabéns ao blog pela iniciativa de divulgar o trabalho de cineastas iniciantes.

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  4. Acho que esse post deveria estar no quadro lá em cima,não o do anime. Vão trocar?

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    1. Opa, em breve irei trocar! xD
      Obrigada por comentar!

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  5. Curti o meme de Krueger, mas,o moleton não era vermelho e preto?

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    1. Originalmente é verde e vermelho, mas tem a versão preta também.

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  6. O que não falta no cinema brasileiro: Drama, putaria, comédia, ação (Essa é a unica parte que fazem de bom) e desenhos infantis. O q faz bem no genero terror (e trash) é o José Mojica , o Zé do Caixão

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  7. o cinema nacional é uma "merda"til teralmente, porque os bostas daqui nt oaem criatividade para escreverem um bom rnredo... troquem esses lixos por jogadores de RGP de mesa de Porto Alegre, garanto s euqaira um bom script digno de IMAX... agoram nao venha chorando para o nosso mobro dizendo qeu a população nao valoriza o "nacional", eu pelo menos nao valorizo "lixo"... parem de ficar eservcendo merda de favela e filmeinho tosco da xuxa, e pensem alem disso.. é o que o resto do mundo faz... e FATO, nao precisamos de uma merda de uma Globo Filmes para produzir conteudo...

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  8. olha eu adooro filme de terror e amaria se o brasil fizesse um perfeito com uma bela filmegam de alta qualidade e bem mais bem horrorizante nao sei porq ate hoje nao fizeram, fazem filme porno; de drama, comedia e cade o grande filme de terror.... nao tem esse negocio de impedimento e q nao tem liberdade ou religiao comanda, gente acooorda e interagir que conta!!!

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  9. PESSOAL IMAGINEM O MANIACO DO PARQUE O TRIS DO PERNAMBUCO Q FAZ COXINHA D CARNE HUMANA A PEDRA DA MACUMBA E CENTENAS DE MANIACOS QUE AGENTE OS CASOS TODOS OS DIAS AQUI E EM OUTROS BLOGS TUDO ISSO NA MAO DOS CIEASTRAS AMERICANOS ERA CADA FILME MELHOR Q O OUTROS !!!

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Ótimo post. Só faltou na lista o filme Desaparecidos que o Brasil lançou em 2011.

    Aqui vai a sinopse: Outubro de 2011. Uma festa VIP, em Ilhabela no litoral paulista. O convite? Uma câmera de vídeo que deve ser usada o tempo todo. Ela registra, aleatoriamente, imagens sem você saber quando vai ligar.

    Parece a festa perfeita? Não para um grupo de amigos, que colocou o pé na estrada rumo à última balada de suas vidas.

    Dias depois de desaparecerem sem explicação, as autoridades encontraram seis câmeras abandonadas na mata. Nelas as aterrorizantes imagens do que realmente aconteceu com os desaparecidos e porque as autoridades mantiveram segredo.

    Você quer mesmo saber a verdade?

    Trailer do filme

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  12. E daí se o Brasil nao tem muitos recursos para o terror? Pra isso que existe a criatividade e imaginação, sei lá invente criaturas para colocar nos filmes. Nao é só por que não é do nosso folclore, os diretores do nosso pais precisam de liberdade pra ciar!!! O cinema brasileiro está completamente monótono!!! Eu vejo varias produções CASEIRAS de terror brasileiras e acho incrível pq com tão pouco recurso financeiro chega a ser assustador!!! Exemplo: O Último take (KitoFilmes , caseiro obviavente), ALIENADOS (DSpictures) e tem aqueles videos desse novo canal agora o: 7 palmos. Desculpa ai os erros ortograficos é pq to muito puto com esse post

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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