1 de out de 2010

Leitura Recomendada: Gantz de Hiroya Oku



Enquanto a segunda parte do especial Zé do Caixão não sai e para não ficar tanto tempo sem postar nada no blog, resolvi falar um pouco sobre uma das minhas histórias em quadrinhos preferida: o mangá Gantz.

Se existe uma coisa que é extremamente irritante para uma pessoa que lê quadrinhos (sejam ocidentais ou orientais) é quando alguém ignorante indaga:
-Isso aí não é pra criança?
Nesses casos é sempre bom ter em sua prateleira obras como essa da qual falarei para esfregar nas fuças do interlocutor dessa pergunta.

Aviso: Postagem MUITO longa (desculpem me empolguei um pouco).

O que é mangá?

Antes de começar este texto, acredito ser interessante explicar para quem não sabe o que é, e nem como funciona o jeito japonês de se fazer quadrinhos.
Ao contrário do que muita gente equivocadamente pensa mangá não é somente o ato de se desenhar personagens com olhos grandes, nariz fininho e cabelo espetado, e mesmo que um desenhista tenha um domínio completo dos traços do desenho oriental, isso não quer dizer que ele sabe fazer mangá.

Enquanto os quadrinhos ocidentais funcionam mais como livros ilustrados (o próprio nome em inglês já diz, comic book/livro cômico), onde o desenho tem mais a função de ilustrar o roteiro, o mangá segue por um caminho completamente oposto. O principal objetivo do mangá é contar uma história através do desenho, sendo que o texto é algo para complementar a mesma, seguindo uma linha narrativa mais fluída, quase que cinematográfica. Uma vez li uma entrevista com um artista japonês (que infelizmente não lembro o nome) que se ele precisasse desenhar uma história ocidental de 30 páginas, ele precisaria de pelo menos umas 100 páginas para fazer em um estilo mangá.

Outra grande diferença do mangá para o quadrinho ocidental é o público. Enquanto a HQ geralmente e quase que em sua totalidade é voltada para um público infanto-juvenil masculino (apesar de existirem HQs mais sérias, que geralmente são denominadas Graphic Novels), o mangá visa todo o público japonês, é interessante observar que existem mangás para praticamente todo gosto. Se você imaginar um assunto, por mais estranho ou banal que seja provavelmente existe um mangá que retrate esse assunto.

Existem mangás voltados para meninos (graças à posição ocidental em relação a HQ são os que mais fazem sucesso no Ocidente), existem mangás voltados para meninas, eróticos, temática homossexual, terror, policial, esportes, homens de negócio, cozinha, donas de casa, bom e por aí vai...
Você pode me afirmar:
-Tá, mas também existem muitas histórias em quadrinhos Ocidentais com vários desses temas aí...
Mas digamos que para cada Will Wiesner, Millo Manara, Neil Gaiman e Alan Moore (alguns expoentes dos quadrinhos adultos), existem pelo menos uns 1000 John Byrne ou Rob Leifield. Enquanto que no Japão a coisa é muito mais eclética.

Não me delongando demais no assunto, até porque existem outros sites onde você pode se aprofundar mais (e eu também não sou nenhum especialista) vamos então à “Leitura Recomendada” de hoje.


Momentos de tensão e "gore" nas páginas de Gantz

O autor e sua obra.


Gantz é autoria de Hiroya Oku, nascido em 1968, Fukuoka, Japão. Oku fez relativo sucesso com sua primeira obra, o mangá erótico Hen.
Porém alcançou sucesso mesmo com Gantz, sua terceira e mais conhecida obra.
Seu trabalho é repleto de erotismo e violência extrema.

Gantz é publicado no Japão desde o ano 2000, em capítulos semanais na revista Young Jump, atualmente se encontra no capítulo 325, quase fechando o 30° volume e entrando em sua reta final.
No Brasil é publicado pela editora Panini desde 2007 e se encontra no 27° volume ao preço de R$ 9,90. Apesar de estar sendo publicado há um bom tempo, ainda se encontram facilmente todos os volumes nas melhores lojas especializadas em quadrinhos.

Sobre a arte.

A arte de Oku é bastante criticada pelo fato do artista se valer muito de técnicas de computação gráfica na sua composição. Cenários, armas e veículos são visivelmente feitos em software de modelagem 3D, enquanto em algumas cenas são visíveis o uso de software de edição de imagens, como na criação de fogo, água, etc.

Porém seus personagens são muito bem desenhados, com formas bem proporcionais, que o uso de tais recursos não tira nem um pouco o brilho do talento de Oku.
Sua linha narrativa e arte seqüencial são tão boas, que às vezes temos a impressão de estar assistindo Gantz ao invés de lendo. Ele eleva à máxima potência o uso da narrativa cinematográfica que é o objetivo do mangá.

Sobre o enredo.

Kei Kurono é um adolescente apático e egoísta que passa o tempo todo fantasiando com belas mulheres, sua vida social é um zero a esquerda e ele não se destaca nem nos estudos e muito menos nos desportos, sua família não se importa com sua existência (tanto que ele mora sozinho). Kurono é um daqueles caras que todo mundo consideraria um perdedor.

Um belo dia quando voltava da escola ele avista no metrô um antigo amigo de infância, Masaro Katou.
Katou não o reconhece na estação, e Kurono também não se apresenta.
Nesse meio tempo um mendigo bêbado cai nos trilhos, enquanto o povo simplesmente espera em vão que a segurança do metrô apareça para ajudar o pobre homem, Katou pula nos trilhos para salva-lo.
Só que Katou não consegue tirar o homem sozinho e pede por ajuda, mas ninguém parece estar disposto a se arriscar. É então que Kurono é reconhecido, e Katou o chama para ajudar, com as atenções voltadas para si, Kurono não tem muita opção...
Apesar de conseguirem salvar o mendigo, Kurono e Katou não conseguem se safar: o metrô chega e atropela ambos.




Algumas capas de edições nacionais pela editora Panini


No momento de sua morte os dois adolescentes são transportados para um quarto, no centro do quarto uma enorme esfera negra se encontra, e ao redor dela várias outras pessoas na mesma situação dos dois: pessoas que também morreram e foram transportadas.
Depois de algum tempo e discussões entre “os escolhidos”, a esfera finalmente revela seus propósitos: todos ali foram escolhidos para participar de um insano jogo, onde deverão caçar alienígenas para assim poderem retornar as suas vidas, até o momento de serem convocados novamente.
Para sua missão os participantes contarão com um traje especial (que garante maior resistência, agilidade e força física) e armas e acessórios diversos para auxiliar na empreitada.

Uma obra insana e politicamente incorreta.

Lendo esse resumo do enredo pode não parecer algo muito interessante, até lembrando uma HQ tradicional infanto-juvenil, mas a condução da história é algo realmente único.
Para começar essa é uma obra repleta de críticas sociais referentes à sociedade moderna, a própria idéia inicial do jogo de Gantz já é uma crítica aos bizarros e apelativos programas de TV japoneses. Temas como bullying, marginalidade, falta de afeto familiar, estupro, suicídio permeiam as páginas da obra.

Particularmente eu nunca li (ou assisti) nada que tivesse tantos personagens dotados de falta de caráter como em Gantz. O próprio protagonista Kurono não é nenhum santo, e nas primeiras edições se mostra como um rapaz egoísta e que não perde uma oportunidade de aproveitar e “apalpar” a pobre menina peituda Kishimoto.

Em um dos diálogos que Kurono tem com uma moça com quem acabara de fazer sexo (aliás, as cenas de sexo e nudez são bem explicitas):
-Kurono-kun...Me diz uma coisa. Por que você me pediu para transar com você?
Foi porque sentiu alguma coisa especial por mim?
-Que nada, foi só porque você parecia fácil. Só isso...


Uma síntese de Gantz: meninas peitudas, violência extrema e criaturas medonhas.

E ainda falando nos personagens, quando você começa a gostar de algum deles Hiroya Oku despudoradamente vai lá e mata o pobre coitado. E detalhe será uma morte dolorosa e sangrenta, com desmembramentos, pedaços do corpo explodidos e tripas saindo do corpo...
Por esses e outros motivos o mangá tem uma censura de 18 anos.

Mas Gantz não é meramente uma obra acéfala e repleta de violência, seu enredo é muito bom e deixa o leitor curioso. E se por um lado é politicamente incorreto, por outro tem alguns momentos emocionantes, a partir da segunda fase o personagem de Kurono tem um grande crescimento e o leitor passa a se identificar e gostar dele. Momentos quando Kurono conhece sua primeira namorada ou quando completa 100 pontos no jogo e é aplaudido pelos seus amigos já fazem a obra valer a pena.

Adaptações para outras mídias.

Gantz, o anime: Como praticamente todo mangá de sucesso, Gantz também recebeu sua adaptação animada. Produzida pelo estúdio Gonzo no ano de 2004, a série é relativamente fiel (com algumas mudanças no enredo) a obra da qual se originou até a terceira missão. Após isso a série foi encerrada abruptamente, com um péssimo final onde não se explicava nada deixando muitas pontas soltas.
O anime foi meu primeiro contato com a obra e na época, graças ao final estúpido, fique bastante curioso em saber como a história continuava e passei a ler o mangá.
Assistindo hoje, posso dizer que a adaptação está atrás a anos-luz por 4 motivos:
Primeiro: o traço é bastante diferente da obra original.
Segundo: Gantz fica muito melhor em preto e branco, o colorido do anime chega a incomodar.
Terceiro: O ritmo da animação é muito lento, sendo que foram necessários 26 episódios para mostrar apenas até a terceira missão, a segunda missão chega a ser algo irritante de se ver.
Quarto: esse já mencionei antes, o final estúpido.


Cenas do anime e capa do videogame de Gantz


Gantz, o videogame: Gantz The Game foi produzido e distribuído pela Konami (a mesma das franquias Metal Gear e Silent Hill) no ano de 2005. O título foi lançado exclusivamente no Japão para o sistema Playstation 2.
Eu nunca joguei, mas pelos vídeos que vi o jogo parece ser algo tão sem graça e inspiração que nem vou perder meu tempo entrando em detalhes e postando links para vídeos aqui.


Poster e cenas do filme.

Gantz, o filme: desde 2009 vem sendo produzidos, não um mais dois filmes live-action (com atores em carne e osso). O primeiro filme tem previsão de estréia para janeiro de 2011. A boa notícia é que é pela mão dos japoneses, ou seja, nada de Hollywood envolvida no projeto.
Os japas são bem a frente dos ocidentais no quesito filmes extremos (vide obras de Takashi Miike), mas estou duvidando que vá seguir uma linha mais violenta, pelas imagens do trailer parece estar levando uma ênfase bem maior na ação, tiros e explosões.
Mas mesmo assim estou levando fé no projeto até porque pelas imagens tem japinhas safadinhas desnudas.


Trailer:

A Leitura Recomendada de hoje fica por aqui, agradeço a todos que tiveram paciência para ler este longo texto, mas como se trata de uma obra que gosto muito, não consegui fazer diferente.

15 comentários:

  1. Gantz é simplismente fodástico!
    Um dos melhores seinen's que já vi sem dúvida.
    Ótima matéria.Deixou bem claro que anime e desenho animado são algo muito diferente.
    Nunca reparei que o gênero de Gantz é terror, engraçado não.

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  2. @ Al-san
    Cara pra ser bem sincero eu acho muito difícil encaixar Gantz em um gênero específico. Tem muito elementos de ação, de ficção científica, erotismo e terror também...
    Pra mim é tão difícil de classificar que nem me preocupo com isso :)
    Apenas curto a história e ponto.

    Mas achei que seria apropriado escrever aqui graças aos elementos de gore e as criaturas bizarras que permeiam as páginas e nesse quesito entra bem no tema do blog.

    Obrigado pela visita!

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  3. Mandou bem João, Gantz é realmente demais !! Lembro q assisti o anime na casa de um amigo ( na epoca nem internet eu tinha) e fiquei fissurado, ao menos ate a terceira missão que em minha opinião é a melhor do anime, a quarta missão eu considero que nem exista. Fiquei sabendo da existencia do manga e que esse é mil vezes melhor que o anime, mas ainda não li ( falta de tempo, normalmente vejo anime antes de dormir, se for ler durmo em 1 minuto rss). Mas lembro que Gantz deixava mil e uma possibilidades no ar que me faziam imaginar o quão boa a estória ia ficar. Eu me perguntava "existem outras esferas de gantz pelo mundo?" "se existirem sera que um dia os campeões de cada esfera irão se enfrentar?" "afinal o que é Gantz?" etc etc.

    Tenho certeza que um dia ainda vou ler o manga, mas como sei q quando começar não vou mais parar acho que vou deixar pras férias rss

    Um abraço a tds ! E parabens pelo excelente post !

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  4. @Leckard
    Cara se você gostou do anime tens que ler o mangá! Por exemplo eu para escrever esse texto comecei lendo as alguns volumes, quando dei por mim já tinha lido todos e deixado o texto de lado.

    Por estar na reta final, boa parte dessas perguntas que você se faz estão sendo respondidas, mas acrdito que nem todas as perguntas no final das contas terão respostas (o que pra mim é algo positivo já que vai dar margem para diversas interpretações, não gosto de tudo explicadinho).

    Olha meu amigo, se pretende ler o mangá, aconselho que procure pelas edições da Panini ao invés de scans. Os Scanlator fazem um trabalho de tradução excelente, mas as páginas escaneadas que pipocam na net tem uma qualidade péssima, tanto que foi um pouco difícil encontrar imagens com boa definição para ilustrar o post.

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  5. Fodastico!!!!!!!!!!!!!!!! :D o Protagonista é quase um oposto de Rayto (Death note) poderiam falar de MPD Psycho, não li o manda mas pelas imagens parece ser Bizarro :S ... Também Hellsing que é sangue para todo o lado :D rsrs

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  6. MPD Psycho é legal mais é mais puxado para um lado policial, poderia falar de homunculus, esse sim é um mangá doentio mais não tem sangue e nem erotismo, mais mexe com o pscicologico de quem lê.
    vale muito a pena ler esse!

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  7. Adoro Gantz!*o*
    As missões que eu mais gosto são a dos dinossauros e a que os vampiros participam.Kurono era um FDP no começo mas ta melhorando.:)
    Comecei a ler um mangá agora que é bem parecido mas nao ta chamando tanto a minha atenção:Batle Royale.

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  8. @Sem-papo
    MPD Psycho eu pretendo falar sobre a série, assim que assistir todos os episódios (e assim que sobrar um tempo). Já o Hellsing eu particularmente não gosto, acho a história muito próxima das Hqs de super-heróis dos anos 90, tem sangue mas pouco conteúdo.

    @ Anonimo
    Eu ainda não li Homunculus, embora a sinopse me chame bastante atenção. O problema é que a Panini paralisou a publicação por muito tempo,e tenho medo de comprar e ela nunca concluir...

    @Ana
    As missões que eu mais gosto são todas ;). Brincadeira eu gosto mesmo e da segunda, aquele momento que Kurono entra no apartamento sem uniforme e é cercado pelo inimigos e ainda dá de cara com o chefão é tenso....
    Batle Royale não quis ler, pois a Conrad cagou com suas publicações e paralisou tudo... Mas tem o filme pra ver.

    Peço desculpas pela demora nas respostas dos comentários pois ando beeem sem tempo ultimamente.

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  9. gostava da animação, mas não pude ver mais do que uns 10 episodios; o mangá é melhor?

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  10. @hqsubversiva

    Pelo menos para mim não tem nem comparação entre um e outro. A história é muito mais fluída, melhor desenhada, funciona melhor em preto e branco, e principalmente não acabou com final estúpido da animação (aliás ainda não acabou).

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  11. PQP Kazunari Ninomiya ta no filme O__O
    to louca pra assistir ^-^
    pra quem não sabe, kazunari ninomiya é integrante do grupo ARASHI que faz sucesso a mais de dez anos no japão, com suas musicas, danças, programas, doramas e filmes...
    ah e ótimo post.. amei *-*

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  12. Gantz realmente é Uma obra unica,Enredo não de Simples series ou mangas,mas uma obra madura que ao mesmo tempo choca,emociona e instiga os leitores,Realmente um manga que esta marcando a historia

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  13. @Hunter
    Concordo plenamente com suas palavras.

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  14. Acho que dizer que a obra é "crítica" é demais. Mostrar estupro e violência não fazem da GANTZ algo crítico quanto a isso...É o mesmo que dizer que filmes de ação são obras que criticam a sociedade. Pegou pesado não ?Pois é.

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    Respostas
    1. Não acho que peguei pesado, foi a minha interpretação. Pelo simples fato de você inserir um assunto sério em um contexto absurdo já é uma crítica.

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